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domingo, 13 de abril de 2008

ARQUIPÉLAGO DAS PALAVRAS

HÁ PALAVRAS QUE NOS DESPEM POR DENTRO QUANDO NOS VESTIMOS DE LAVADO


JOÃO LOBO ANTUNES

Neurocirurgião

“Na educação continuamos muito abaixo da qualidade necessária para o País, e está a perder-se tempo — que não é um tempo real, são anos-luz — em termos de procurar soluções. É uma doença crónica que já aflige a nossa Educação. Acresce que é no ensino secundário que se molda, em grande parte, aquilo que os rapazes e raparigas vêm a ser no exercício da cidadania, nas qualidades de trabalho, de exigência, de disciplina.

“ Mesmo para quem exerce uma profissão técnico-científica como é a minha, a História, a Filosofia e o Português são fundamentais. Tenho participado em sessões para tentar salvar a Filosofia do currículo. Faço-o com gosto porque a formação filosófica — «a capacidade de ver para lá da aparência das coisas», como dizia Fernando Gil — é fundamental. E repare como muito deste debate da Educação se fica pela aparência das coisas... Reduzir a Filosofia a uma inanidade cinzenta é um crime. O problema é que esses crimes são como alguns efeitos de estufa intelectual, em que só vemos as consequências anos depois.

“Repare como essa frase [«Li muito, li tudo para o que desse e viesse», de Vitorino Nemésio] contraria a teorização da pedagogia moderna, em que querem objectivos, comportamentos, programas, axiomas como «só se pode ensinar aquilo que pode ser avaliado». Perde-se o valor da Educação na perspectiva nemesiana — o saber livre, o saber gratuito, o saber por saber — e fica-se nesta história de saber porque vão perguntar-me para ver se sei.

Excertos da entrevista dada à revista Visão (27 de Março de 2008)

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