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domingo, 1 de junho de 2008



ABRIR AS ASAS E VOAR

Que triste figura fazem os que imaginam
que o mundo só existe para eles
e o tentam descrever num poema ou num romance.
Este pequeno poder ilusório
infestou há muito as páginas dos livros
suportado pela bênção de quem os louva.
Muito padecerá quem assim pensar.

A literatura nada muda. Não pode.
Poderão, se tanto, mudar as regras
que a regulam e limitam.
Toda a vida se escreveram livros
que falam de outros livros
que falam de outros lugares,
que falam de outras pessoas.
A literatura está cansada
dos jogos do poder e da vaidade
que em nome dela se praticam.
A literatura quer viver a sua vida
sem ter quem a policie e interprete.
Não quer estar confinada aos laboratórios,
nem ao exercício interminável da pesquisa.

Ela fala de pessoas e dos seus dramas
E não gosta que a cataloguem ou classifiquem.
Às vezes apetece-lhe abrir as asas e voar.


JOSÉ JORGE LETRIA,
in O Livro Branco da Melancolia (2001)


O VERSO ALCANÇANDO O INFINITO

O poema nasce de um impulso,
de uma febre, da tirania de uma miragem,
da tentação sonora de uma metáfora,
do vazio que teme transformar-se em nada.
Depois é a escrita, é o trabalho da mão
sobre a matéria incandescente das sílabas.
E, quando damos por nós, é de corpo inteiro
que estamos na fragilidade do poema
como se tivéssemos ousado cavalgar numa nuvem
para desafiar todos os poderes do céu.
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Quem ousará explicar este sortilégio?
Nem sequer os deuses, pois esses
nasceram da própria erupção do verbo,
da explosão da prece fingindo ser capaz
vencer o sofrimento e o assombro.
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O poema nasce, afinal, da ilusão
de que ainda resta algo para ser dito
e de que o silêncio é um cativeiro fugaz
em que as palavras se amotinam
para de novo voltarem a ser voz.


JOSÉ JORGE LETRIA,
in O Livro Branco da Melancolia (2001)







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