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quarta-feira, 18 de março de 2009

Antero de Quental, por Zeca Medeiros


Zeca Medeiros: A "ousadia" de filmar Antero
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O novo filme do realizador José Medeiros, a exibir em 2009 na RTP/Açores, recorda a vida e obra do poeta Antero de Quental, uma "ousadia" para dar a conhecer um dos maiores vultos da cultura portuguesa.
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"Pretendo desvendar os mistérios e grandezas de um homem extraordinário. Se conseguir passar essa mensagem a quem conhece menos bem a vida e obra de Antero de Quental, cumpro a minha missão", afirmou à agência Lusa o realizador açoriano, que está a gravar, desde o início do ano [2008], o filme sobre o poeta açoriano do século XIX.
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Antero de Quental nasceu em Ponta Delgada, ilha de São Miguel, nos Açores, em 1842. Licenciou-se em Direito na Universidade de Coimbra. Privou com nomes sonantes da cultura portuguesa como Eça de Queirós e Ramalho Ortigão e suicidou-se em 1891 na cidade natal.
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Com um orçamento de 250 mil euros, a película, cujas gravações terminam em Setembro, pretende enfatizar "o lado mais humano de Antero de Quental", mostrando "um homem genial, atormentado, preocupado com o espírito, mas também dado a paixões".
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O guião do filme, escrito por José Medeiros e André Palmeiro, a partir de um esboço do director regional da Cultura, Vasco Pereira da Costa, conta também com uma banda sonora original criada pelo realizador, em que são interpretados dois poemas de Antero de Quental por Filipa Pais e Mariana Abrunheiro.
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Além das actrizes continentais Maria do Céu Guerra, Sofia Nicholson e Rita Lello, destacam-se actores açorianos como Natália Marcelino, Raul Resendes e Emanuel Carreiro, entre outros, numa película com um elenco de cerca de 30 actores profissionais e amadores e 50 figurantes.
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"Nunca tive a preocupação de ter nomes sonantes. O critério foi escolher actores que pudessem servir as personagens", afirmou o realizador, ao reconhecer que, depois de um atraso inicial, a rodagem está "mais ou menos dentro dos prazos previstos" e será concluída com a gravação de algumas cenas no Continente.
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A produção da RTP/Açores, que José Medeiros classifica como sendo "uma grande ousadia", conta com o apoio financeiro do Governo Regional e terá uma duração estimada de uma hora e meia.
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Além da emissão no canal público regional, no início de 2009, o realizador gostaria de que o seu mais recente trabalho passasse num dos canais nacionais da RTP, à semelhança do que já aconteceu com os "Xailes Negros".
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José Medeiros anunciou, ainda, que está previsto lançar um DVD, o que vai permitir à produção percorrer o país e, eventualmente, a diáspora, para dar a conhecer o poeta Antero de Quental às gerações mais novas, através de sessões de cinema e debates em escolas e colectividades.
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Por haver muitas histórias nos Açores que estão "no lado oculto da lua e merecem ser contadas", José Medeiros revelou que tem já em mente um novo filme, que vai contar a história do corvino Carlos Jorge Nascimento, que imigrou para o Chile e foi o primeiro editor do escritor Pablo Neruda.
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Sentado à entrada da aula magna da Universidade dos Açores, onde decorrem actualmente as gravações do filme, Raul Resendes, 50 anos, fuma um cigarro enquanto espera para "vestir a pele" de Antero de Quental, um dos "maiores desafios" da sua carreira enquanto actor amador.
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"É uma oportunidade e uma enorme desafio que o Zeca (José Medeiros) me colocou há cerca de dois a três anos e nunca mais me saiu da cabeça. Não pude recusar", confessou à Lusa Raul Resendes, que conta no currículo com participações em várias produções de José Medeiros e nos filmes de Artur Ribeiro e Margarida Gil.
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O técnico de som da RDP/Açores referiu, também, ter ficado surpreendido ao constatar as inúmeras semelhanças físicas que tem com o poeta e filósofo açoriano Antero de Quental, sobretudo após ter deixado crescer a barba há 11 meses.
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"Muitas pessoas, mesmo sem saberem que estou a fazer esse papel, metem-se comigo e chamam-me de Antero", afirmou Raul Resendes, que, por imposição do papel, não pode ir à praia este Verão para manter o tom de pele e tem de cuidar da linha e aparar frequentemente o cabelo para haver coerência ao longo de todo o filme.
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Antes de aceitar o papel, Raul Resendes admitiu conhecer "muito por alto" a obra de Antero de Quental, mas todo o trabalho de preparação obrigou-o a ler cartas e poemas do autor, o que considerou ser uma "das grandes recompensas" que leva desse trabalho.
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"Eu, como tantos outros açorianos, desconheço Antero. Desde que comecei a lê-lo, tenho recomendado a amigos", disse o actor, que sente "algum medo" do dia em que vai cortar a barba após a conclusão das gravações, por já se ter habituado à imagem.
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Por ser um filme de época, gravado nos Açores e no Continente, a produção teve de realizar antecipadamente uma pesquisa documental para poder escolher o guarda-roupa, maquilhagem e penteados, bem como cenários interiores e exteriores mais adequados.
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A figurinista Rosa Almeida Lima referiu à Lusa que, só para a personagem de Antero de Quental, que demora cerca de uma hora a caracterizar, foram mandados fazer, por medida, num alfaiate em Lisboa, sete fatos e dois sobretudos.
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No total, foram alugados mais de 200 fatos em lojas da especialidade, em Lisboa e Madrid, para as restantes personagens, que vão sendo, ao longo das gravações, alterados por costureiras locais, para parecerem diferentes.
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Além disso foram emprestados por famílias micaelenses vários adereços antigos, como jóias, leques, estolas, relógios, chapéus e bengalas, indicou.
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Apesar de existirem ainda os sapatos, chapéu e bengala usados por Antero de Quental, objectos que fazem parte do acervo da Biblioteca Pública de Ponta Delgada, a sua fragilidade inviabilizou que fossem utilizados durante as filmagens, mas serviram de modelo para encontrar ou mandar fazer réplicas.
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Rosa Almeida Lima, que se estreou como figurinista no "Mau Tempo no Canal" e já trabalhou em filmes de vários realizadores portugueses, entre os quais Manoel de Oliveira, considerou que os filmes de época são "muito mais exigentes e obrigam a uma grande imaginação e criatividade" para fazer face aos orçamentos limitados e à pouca oferta de guarda-roupa existente em Portugal.
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Autor: Ruben Medeiros (Lusa)
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