Faça dinheiro sem esforço

sábado, 25 de abril de 2009

O que faz falta, Zeca?


Festejamos hoje os 35 anos da Revolução dos Cravos, como ficou conhecido o golpe militar que pôs termo a mais de 40 anos de ditadura.

Do rol variado de restrições que então se impunham e que a «Primavera marcelista» não soube ou não quis extinguir, destaco a censura de tudo o que então se escrevia. Sob o olhar atento dos censores, mais preocupados com palavras sediciosas do que com a qualidade da escrita, estendiam-se, carrancudos, os traços do lápis azul e, encimando uma folha, o rotundo “VISADO”.

Sem dúvida que a Revolução nos possibilitou definir um caminho político para o nosso país, construído em diálogo, confronto de ideias ou ideais, muitas das vezes acalorados, demasiado românticos e, pior, com ajustes de rua, atentados, motins, que, por pouco, nos iam projectando para uma guerra fratricida.

Apesar de tudo, as hostes acalmaram, muito no espírito do Condestável Nuno Álvares Pereira, que, garantida a integridade da nação, se recolheu do campo das batalhas políticas para se dedicar à espiritualidade e às benfeitorias.

Não me espanta, assim, que também muitos dos que se envolveram nas lutas democráticas do 25 de Abril se tenham, mais tarde ou mais cedo, afastado, como o incontornável Salgueiro Maia, que nada mais quis de Abril senão o espírito de mudança e o inconformismo que impulsionam o Homem a procurar a Liberdade para as suas gentes.

Olha-se, hoje em dia, para a política e para os políticos, na sua maioria antigos activistas de lutas em prol da democracia, ou que se gabam disso, e vemo-los mais interessados com as questões internas dos seus partidos, ou deles próprios, do que com o País, com os ideais de esquerda ou de direita, protecção social, justiça, segurança, estabilidade, verdade, por que, creio, lutaram no PREC.

Cansamo-nos da corrupção, dos escândalos da classe política, dos compadrios, das injustiças sociais e de um regime democrático onde os deputados são escolhidos pelos partidos para serem mandatados pela população a seguirem, quase sempre, uma disciplina de voto partidário. O deputado, mais do que estar ao serviço do povo, está ao serviço do partido, que, quantas vezes, contraria o seu programa eleitoral, apresentado em festa no calor de uma campanha milionária.

Muitas vezes penso no rotativismo dos partidos liberais, na segunda metade do século XIX, e imagino se não teremos caído no mesmo marasmo. Lemos as críticas da imprensa da altura e vemos os magníficos desenhos humorísticos de Rafael Bordalo Pinheiro com um pensamento de actualidade a tocar-nos bem fundo.

É extraordinário como evoluímos tanto ao nível tecnológico e como marcamos passo no humanismo, na evolução de mentalidades, neste servilismo económico que amarra muitos a poucos.

Dizem-me que sou um dos “filhos” de Abril. Tento acreditar, de verdade! Por isso, afasto os fantasmas da descolonização atabalhoada, dos atentados à bomba, das autopromoções, do depauperamento das reservas financeiras, para acreditar que, para além do que falhou entretanto, hoje não nos deixamos manietar por despotismos irracionais.

O que faz falta, Zeca, à malta?

“Canga”, de Horácio Bento de Gouveia




Por volta de 1946, Bento de Gouveia empreendeu a escrita desta magnífica obra, que aborda as injustiças que pesavam sobre o mundo rural madeirense, sobretudo por causa do medieval regime agrário da colonia, que obrigava o empobrecido camponês a trabalhar desalmadamente uma terra que nunca lhe poderia pertencer. O benefício era todo do senhorio, que impunha as rendas pelo amanho dos terrenos, mais as partes do que estes produzissem, não olhando às dificuldades e às inconstâncias do tempo, aos imprevistos, às maleitas, à penúria, mas somente ao lucro máximo. Chegava-se ao cúmulo de os pobres camponeses serem inspeccionados nos seus feijoeiros, a fim de o senhorio se acautelar que nenhuma vagem tinha sido arrancada do pé, pois tudo o que medrava nos terrenos não pertencia aos colonos, mas sim ao senhor, apesar de serem aqueles que cultivavam a terra e sobreviviam com os restos com que conseguiam ficar (isto quando a terra dava).

Assim, em 1949, Bento de Gouveia lança Ilhéus. Numa reedição feita em 1960, o escritor acaba por incorporar factos importantes acontecidos na década de cinquenta, essencialmente a compra de terrenos por parte do Estado para os entregar, sob o pagamento de suaves prestações, aos colonos.

No pós-25 de Abril de 1974, envolto no projecto autonómico da Região, Horácio Bento retoma o romance, actualizando-o com um novo título, Canga, já anteriormente pensado, mas impossível de concretizar por causa da Censura. Para mais, o escritor madeirense nunca ficou satisfeito com os dois primeiros títulos, Os Garipos e os Misérias (antes da impressão) e Ilhéus, até porque é o próprio Aquilino Ribeiro que, em carta ao autor, a propósito do prefácio que escrevera para a primeira edição do livro, em 1949, refere que o título é «muito restritivo». Havendo a liberdade almejada, Horácio Bento coloca, na obra, o título inicialmente pensado, Canga, acrescentando-lhe, ainda, mais dois capítulos que tinham sido censurados nas duas edições anteriores. Nunca satisfeito, reformula, também, determinados trechos, muda alguns nomes de personagens e repõe passagens censuradas nas primeiras edições, como quando o colono desabafa que «um homem tem de ser livre», conforme nos diz Thierry Proença dos Santos, na introdução que faz à reedição feita, em 2008, pela empresa municipal “Funchal 500 Anos”.

Horácio Bento de Gouveia elucida-nos, em definição das razões para a terceira edição, de 1975, acerca da «mágoa de a obra ter sido truncada pela censura, quando foi lançada ao público. Os capítulos censurados por circunstâncias de natureza político-social desarticularam a acção romanesca dentro do realismo da vida». Assim, diz o escritor, «um motivo forte impulsionou a presente edição: a actual ausência de censura».

Hoje podemos ler integralmente a soberba obra, que, «para muitos», nas palavras de Thierry Proença dos Santos, «é o romance marcante da literatura de temática madeirense de meados do século, como Eternidade, de Ferreira de Castro, o fora nos anos trinta». Deste modo, «havia, finalmente, um romance escrito por um madeirense que dava conta do seu sentir de ilhéu e espelhava a sociedade madeirense, problematizando algumas das injustiças e aspirações que a definiam».

Todavia, apesar da terceira edição ter saído liberta dos algozes da Censura e de ter tido ampla projecção nos anos oitenta, caiu, entretanto, num certo esquecimento, desviando-se de toda uma camada jovem (e não só!) que a devia, sem dúvida, conhecer.

«— Triste de quem é prove!»

quarta-feira, 22 de abril de 2009

Artigos de leis, decretos e portarias

Em conversa com alguns colegas, surgiu a dúvida acerca da numeração de artigos de leis, decretos e portarias, tanto na escrita como na oralidade.

Assim, após apurada demanda no ciberdúvidas e tendo por base a Nova Gramática do Português Contemporâneo, de Celso Cunha e Lindley Cintra, as conclusões foram estas:

a) na escrita, observando-se que há contradição entre o falado e o escrito, propõe-se que se escreva ou sempre os ordinais ou sempre os cardinais, por uma questão de coerência (ex.: Art. 1.º, 2.º, 3.º ,... 14.º, etc. ou Art. n.º 1, n.º 2, n.º 3, ... n.º 14, etc.);

b) na oralidade, devemos então seguir a regra geral que indica o ordinal até nove, e o cardinal de dez em diante (ex.: Artigo 1.º - primeiro, Artigo 2.º - segundo, etc. e Artigo 10 - dez, Artigo 11 - onze, etc.);

c) não existe unanimidade acerca da utilização dos numerais ordinais e cardinais a este respeito quer nas gramáticas existentes, quer nas opiniões de consulentes diversos;

d) a orientação aqui apresentada parece ser a que se afigura mais adequada.

Obs.: poderão consultar o sítio http://www.ciberduvidas.pt onde encontrarão os esclarecimentos aí existentes.

domingo, 19 de abril de 2009

4.ª Edição do Literatura em Viagem


A 4.ª edição do Literatura em Viagem, o encontro de escritores organizado pela Câmara Municipal de Matosinhos, com coordenação de Francisco Guedes, realiza-se entre os próximos dias 18 e 21 de Abril. Vão estar presentes autores portugueses, espanhóis, norte americanos, italianos, mexicanos, argentinos, peruanos, brasileiros e chilenos, unidos pela paixão de viajar. Ao longo do encontro serão lançados vários livros.
..
..
Veja o programa completo no blogue do Jornal de Letras.

World Press Cartoon (5.ª edição)


Veja os vencedores do WPC Sintra 2009 em http://www.worldpresscartoon.com/pt/index.php

Exposição "Rafael Bordalo Pinheiro - Da Caricatura à Cerâmica", no Sintra Museu de Arte Moderna




Fábrica de Faianças Artísticas Bordalo Pinheiro



Depois de estar em risco iminente de fechar, esperamos que o novo investidor catapulte novamente a fábrica das Caldas da Rainha, fundada em 1884, para o lugar insubstituível que sempre ocupou no nosso país, mantendo-se, assim, o legado de Rafael Bordalo Pinheiro e do seu irmão Columbano.

Parece, também, segundo notícia do JL (n.º 1005), que o Estado comprou os «moldes» de Rafael, o que assegura a sua preservação.

"Singularidades de uma Rapariga Loura", de Manoel de Oliveira, no Festival Indie


O filme "Singularidades De Uma Rapariga Loura", de Manoel de Oliveira, será exibido em antestreia nacional no 6.º Festival Indie Lisboa, que arranca a 23 de Abril, anunciou hoje [13 de Março] a organização.

O mais recente filme de Manoel de Oliveira, produzido pela Filmes do Tejo, será exibido no festival dias antes da estreia comercial nas salas de cinema, marcada para 30 de Abril.

A sessão de antestreia, ainda sem data certa, decorrerá no cinema São Jorge, em Lisboa, e o cineasta deverá marcar presença.

"Singularidades De Uma Rapariga Loura", uma co-produção entre Portugal, Espanha e França, é uma adaptação de um conto homónimo de Eça de Queirós, publicado no começo do século XX.

A história centra-se em Macário, um jovem contabilista que se perde de amores por Luísa Vilaça, uma rapariga loira por quem fez juras de amor e casamento até que descobre uma singularidade da virtuosa noiva.

Nesta nova produção, Manoel de Oliveira contou com a participação de Ricardo Trêpa, seu neto, Diogo Dória, Leonor Silveira, Júlia Buisel, Rogério Samora, Luís Miguel Cintra e Catarina Wallenstein, no papel de Luísa, a rapariga loura.

A longa-metragem foi rodada em Novembro e Dezembro do ano passado e teve a primeira apresentação mundial em Fevereiro no Festival de Cinema de Berlim, onde Manoel de Oliveira foi distinguido com o Prémio Berlinale Kamera.

Actualmente, Manoel de Oliveira está a trabalhar na produção do filme "O Estranho Caso de Angélica".

O Indie Lisboa, festival dedicado ao cinema independente organizado pela associação Zero em Comportamento, decorrerá de 23 de Abril a 3 de Maio.

Nesta 6.ª edição, o festival irá homenagear os realizadores Werner Herzog e Jacques Nolot com a realização de duas retrospectivas. A programação será apresentada no dia 23 de Março em Lisboa.
..

sexta-feira, 17 de abril de 2009

Festa da Flor 2009

Terá como tema “O Principezinho”


O Governo Regional vai investir um total de 301 mil euros na Festa da Flor 2009, um evento que, de acordo com a secretária regional do Turismo e Transportes, Conceição Estudante, já é "o maior cartaz turístico da Madeira", na perspectiva de ser aquele que "maior retorno económico" traz à Região.
..
Na apresentação da Festa da Flor 2009, a governante enalteceu ainda o aumento no número de flores dos produtores madeirenses que serão utilizadas neste cartaz turístico.
..
Integrada na Festa da Flor, que decorre entre 22 e 26 do corrente mês de Abril, foi também inaugurada uma exposição alusiva à história de 'O Principezinho', patente no Espaço Infoart da secretaria de Turismo, e que reúne parte do espólio particular de Francisco Fernandes.
..
Nélio Gomes
..

Filme "Um Amor de Perdição", de Mário Barroso


Dia 17 de Abril

Antestreia do filme "Um Amor de Perdição"

O auditório da Casa de Camilo, em S. Miguel de Seide, Famalicão, acolhe dia 17 a antestreia do filme "Um Amor de Perdição", uma adaptação de Mário Barroso do romance de Camilo Castelo Branco.

Fonte do organismo indicou hoje [7 de Abril] à Lusa que o filme, que se estreia nas salas de cinema dia 23, "é a quarta versão do eterno 'Amor de Perdição' da autoria do grande romancista".

Além de já ter dado origem a quatro filmes (um deles pelo realizador Manoel de Oliveira), o romance de Camilo já inspirou inúmeras adaptações teatrais e o próprio livro continua a ter sucessivas edições, assinalou a fonte.

A cerimónia conta com as presenças do realizador e dos actores Tomás Alves e Catarina Wallenstein, entre outros.

"Um Amor de Perdição", de Mário Barroso, é a história de um encontro entre Simão e Teresa, sobre um fundo de conflito entre duas famílias da burguesia.

Na introdução ao catálogo do filme, o realizador diz: "Simão é um adolescente quase criança, solitário, intransigente, narcisista, destrutivo e suicidário que atrai como uma aura fatal, uma luz negra, a maior parte das pessoas com quem se cruza. Mas Teresa existe, ou é apenas uma ideia, uma imagem, um reflexo? Teresa é uma aparição. Um pretexto para uma revolta amoral e violenta".

"Ao adaptar o romance ao cinema pretendi concentrar-me naquele que considero ser o real mote impulsionador da história: a obstinação, a história de oposição que leva à auto-destruição do herói e não tanto a história de amor proibido entre dois adolescentes", explica.

"'Um Amor de Perdição' - diz ainda - é, essencialmente, Simão Botelho. O adolescente que não reconhece autoridade nem moral porque vive fora dela, tem a sua própria ética que o vai levar até ao fim aniquilador, como se de algo inevitável se tratasse. Mais do que uma história de paixão, uma história de violência e rivalidade".

O filme foi produzido por Paulo Branco e conta com Tomás Alves, Patrícia Franco, Catarina Wallenstein, Ana Padrão e Willion Brandão nos principais papéis. O argumento adaptado é de Carlos Saboga e a música de Bernardo Sassetti.

Em Março, o filme foi seleccionado para o Festival de Cinema Independente de Buenos Aires e integrou ainda a selecção oficial do Festival Internacional de Cinema de Las Palmas, em Espanha.



Soeiro Pereira Gomes



14 de Abril de 2009

A Câmara de Baião homenageia a 25 de Abril, com uma sessão solene da Assembleia Municipal, a figura de Joaquim Soeiro Pereira Gomes, um dos escritores que marcaram o estilo neo-realista na literatura portuguesa.

Soeiro Pereira Gomes nasceu faz hoje 100 anos (14 Abril de 1909), na freguesia de Gestaçô, concelho de Baião.

Filho de uma família de agricultores durienses - e irmão da escritora infanto-juvenil Alice Pereira Gomes e do matemático Alfredo Pereira Gomes - Soeiro Pereira Gomes viveu também em Espinho, Coimbra, Angola e Alhandra (Vila Franca de Xira).

Pautou a sua actividade pela defesa da melhoria de vida das classes trabalhadoras e pela denúncia da exploração a que estas estavam sujeitas.

A sua actividade repartiu-se pela escrita - foi autor dos romances "Esteiros" (ilustrado por Álvaro Cunhal) e "Engrenagem", e do livro de contos "Contos Vermelhos" - pela dinamização cultural e desportiva da comunidade de Alhandra e pela militância no Partido Comunista Português, ao serviço do qual passou à clandestinidade.

São as diferentes facetas da vida desta personalidade que o município de Baião vai homenagear, no próximo dia 25 de Abril, com uma sessão solene da Assembleia Municipal. Na cerimónia tomarão a palavra os partidos com assento naquele órgão, bem como um familiar de Soeiro Pereira Gomes.

Um representante do PCP vai recordar o contributo de Soeiro para a resistência antifascista.

Numa parceria entre a Câmara Municipal de Baião e os CTT, vai ser apresentado um selo comemorativo do centenário de Soeiro Pereira Gomes.
..
A homenagem, que se reparte pelos Paços do Concelho de Baião e pela freguesia de Gestaçô, contará ainda com momentos musicais - a cargo da Banda da Casa do Povo de Santa Marinha do Zêzere e do músico Gildo Oliveira - e com a deposição de uma coroa de flores junto ao monumento de Soeiro Pereira Gomes.

PM.

Lusa
..
..
Soeiro Pereira Gomes 100 anos de um clássico
MOSTRA BIBLIOGRÁFICA 1 a 23 de Abril BNP
..

domingo, 12 de abril de 2009

"O Inspector Geral", de Nicolau Gogol

Em cena no TeatroCinearte A Barraca
..
..
Uma minúscula autarquia de província vive o pesadelo da visita de um Inspector-Geral anunciada por carta a um presidente da câmara modelo de populismo, corrupção e ridículo.
..
Durante quase duzentos anos debateram-se opiniões sobre esta obra de Gogol. Estamos diante de uma sátira de costumes disse-se. De uma obra política? Outros defenderam “é uma obra de dimensão metafísica”, uma obra moral, um exercício de fantástico e de absurdo onde o sonho, o medo e o remorso dominam.
..
Felizmente vivemos um tempo que entrelaçou Brecht com Stanislasvki e Marx com Freud. Estamos livres para olhar para este impostor, estrangeiro, diabo, nada, com a liberdade de não querermos saber o que foi ele para Gogol, mas o que pode ser para nós hoje.
..
Para mim, se querem saber, estamos diante de tudo isso e de um escritor/artista a jogar às escondidas com o seu pânico. Mas sobretudo estamos num Baile de Máscaras onde ninguém é quem mostra ou, sequer, quem julga ser. No coração das trevas, lá mesmo onde o teatro acendeu uma luz. Uma obra que permite a actores e directores a realização de grandes trabalhos e ao público um arraial de gargalhada.
..
..
Veja também o blogue:
..



quinta-feira, 9 de abril de 2009

"Embeiçado"

Já há muito que tivemos esta conversa. Os dias foram passando e ficámos, até agora, somente pelas palavras trocadas por cima de um balcão. É quase como se só me visse em grandes planos. Já se deve ter habituado a observar os outros assim, em partes, em relampejos, em olhares.

Olho para o balcão e vejo-o lá, emoldurado, como se todo aquele tabuado polido fosse o caixilho do seu trabalho. O ser, esse, não se prega, fixo, com tachas de metal.

Disse, então, que numa determinada novela empregavam o termo “embeiçado” com um significado diferente daquele que conhecia, “estar sem dinheiro”.

Empederni-me, pois esse era claramente um significado que não conhecia. Sempre ouvira e aplicara o sentido de “estar enamorado”, “andar pelo beicinho”.

Pensei que tivesse sido um problema meu de audição e insisti consigo. Andámos, assim, durante alguns segundos, a soletrar sílabas, como se fôssemos linguistas ou teríamos perdido, sei lá, as estribeiras, no julgamento avulso de alguém que se fizesse aparecer naquele momento tão filológico.

Continuava alheado de uma explicação clara sobre a aceitabilidade desse significado. Não lhe poderia dar certezas, pois, para um “cubano”, a aprendizagem de determinados termos vai sendo feita com o tempo. O berço trouxe-me outros vocábulos, muitos deles também de aplicação regional, que, por sua vez, vou tentando não esquecer, para bem de todo o nosso riquíssimo património linguístico. Às vezes acontece estarmos a discutir determinados regionalismos e notamos que essas mesmas palavras têm um uso igual em determinadas zonas do Continente. Espanta-me, por exemplo, dizer-se que “malha”, no sentido de “dar uma malha a alguém”, é um regionalismo madeirense, ou que “penca”, no sentido de “nariz”, também o é. Por vezes, cai-se um pouco no exagero, por desconhecimento dos usos de outras zonas e da própria história da Madeira, com os seus movimentos populacionais. Contudo, isto não diminui em nada, muito longe disso, todo o valiosíssimo património ao nível dos regionalismos madeirenses, que eu deveras aprecio, cada vez mais.

Assim, meu caro amigo, aprendi consigo que “embeiçado” também poderia significar “estar sem dinheiro”, como pude, posteriormente, confirmar no blogue da Lilia Mata, “o rabo do gato”, delicioso nestas estórias que têm palavras como personagens. Não vem nos dicionários normativos, compreende-se, mas tem a correcção do uso, num código que é entendido e aceite por um conjunto de falantes.

Para que a memória das gentes e a alma das palavras não se perca, tem de haver sempre estes momentos animados em que nos embeiçamos com o porte de uma expressão.

"Grandes Livros", a nova série da RTP2

GRANDES LIVROS é uma série de 12 documentários, com 50 minutos cada, narrados por Diogo Infante, que pretende contribuir para a promoção da leitura das grandes obras da literatura portuguesa junto de todas as faixas etárias de falantes de português. Cada episódio contará com a participação dos principais especialistas na obra e/ou no autor em análise.
..
O conceito GRANDES LIVROS assenta na análise da obra mais emblemática de um escritor português: a estória, o contexto histórico, a importância que teve/tem, a história do autor. A selecção obedece ao seguinte critério: um livro por autor; autores portugueses falecidos; obras passíveis de serem abordadas em televisão e apelarem a uma grande faixa da população.
..
..
Lista de obras para a primeira série de "Grandes Livros":
..
- Os Maias (Eça de Queirós)
- Os Lusíadas (Luís Vaz de Camões)
- O Delfim (José Cardoso Pires)
- Aparição (Vergílio Ferreira)
- Navegações (Sophia de Mello Breyner Andresen)
- Livro do Desassossego (Fernando Pessoa)
- Sinais de Fogo (Jorge de Sena)
- Sermão de S. Ant. aos Peixes (P. Ant. Vieira)
- Viagens na Minha Terra (Almeida Garrett)
- Mau Tempo no Canal (Vitorino Nemésio)
- Peregrinação (Fernão Mendes Pinto)
- Amor de Perdição (Camilo Castelo Branco)
..

Relíquias de uma Biblioteca Escolar

Torna-Viagem, de Horácio Bento de Gouveia
..
..
Torna-Viagem é, como assume o autor no subtítulo, o romance do emigrante, em que, sempre no dizer do mesmo, “o descritivismo e a narrativa possuem uma inteireza, um visualismo e uma sobriedade retórica de estilo clássico”.
..
O romance, cuja acção tem início na viragem dos anos trinta para quarenta e fim por volta do ano de setenta e sete, organiza-se em duas partes.
..
Na primeira, intitulada “vidas ignoradas”, o narrador pinta a vida dos habitantes da Achada do Castanheiro, lugar da freguesia de Boaventura, onde as marcas da insularidade lhes determina o quotidiano. Duas estórias distintas e exemplares vão constituir a tessitura diegética: a do sapateiro Artur, recém-casado e preso à sua condição social, levando-o a tomar a decisão de emigrar, e a do casal Freitas, o Francisco e a Inês, que também se vê obrigado a demandar outras terras por não haver na freguesia condições económicas de sustentabilidade para o pequeno comércio em que investiram, nem perspectiva de mobilidade social.
..
Na segunda parte do romance, designado como “o emigrante”, seguem as tribulações desses e outros filhos da Achada, pelo Brasil e, depois, pela Venezuela, com todos os fracassos e sucessos, mantendo sempre viva a esperança de voltar ao torrão natal e “conquistar um lugar de direito junto dos seus conterrâneos.” Artur, a quem “ a falta de tino por causa das mulheres” deita a perder as boas oportunidades, volta, no final, já envelhecido e sem nada, passados trinta e cinco anos, à casa de partida e à mulher que abandonou, enquanto a família Freitas, animada por um espírito empreendedor, acaba por colher os frutos de seu trabalho, dando corpo a uma história de sucesso empresarial na Venezuela.
..
Torna-Viagem não perdeu actualidade. Hoje como ontem, ilhéus continuam a emigrar e os problemas que enfrentam também são de vária ordem. Há os bem sucedidos e há os desventurados da sorte.
..
[Graziela F. Camacho]
..
Dois excertos:
..
«E depois de algurandearem, os olhos tolhendo a reflexão, seduziu-os a obra indígena de vime; e desarvorou o automóvel direito ao Santo para, momentos vividos em que se olha e não se vê, flectir o carro através da estrada de ziguezague até à Portela. O morro da Penha d' Águia afrontando o mar suscitou de Fonseca Pereira:
-- Faltam-me as palavras para dizer o que sinto!
À vista das fazendolas cultivadas acolá onde os abismos se afundam em boqueirões que os olhos apavoram, o senhor Pereira formulou o juízo:
-- Se a Ilha é toda assim a emigração é necessidade do homem. Agora compreendo que o madeirense emigre para Venezuela, Canadá, Austrália, Brasil... O trabalho duro do homem deve ser quase insuficiente na conservação da vida do corpo.» [p. 234]
..
«Fonseca Pereira compreendeu, com digressar pelas terreolas, que a emigração é uma necessidade do ilhéu. Vida escravizada à terra tão retalhada que as nesgas mal chegam para extrair da vida dura o pão que alimenta escassamente e escassamente dá o vestuário e o calçado. E foi confabulando, terminado o almoço, que o Francisco Freitas descreveu o panorama económico da maioria das populações do norte da ilha: as culturas são pobres e a gente tem de ser pobre.» [p. 238]

sexta-feira, 3 de abril de 2009

"Kronos", de Cristina Branco

O fado não fazia parte das escolhas de vida de Cristina Branco. As suas atenções estavam mais centradas noutras músicas e no curso de Comunicação Social que queria concluir. Mas o disco de Amália Rodrigues, que, aos 18 anos, o avô lhe ofereceu, deitou por terra ideias feitas.

Foi ouvir fado ao vivo. E isso fê-la mudar de ideias. Começou a cantar. Curiosamente, foram os holandeses quem primeiramente a descobriram, vai para 11 anos. Desde então tem-se dedicado a "um desassossego e a uma procura" que se materializam em mais um disco, (o décimo da carreira), intitulado "Kronos", que estará à venda a partir de amanhã [9 de Março]. Nele reúne 14 temas inéditos com contributos de nomes como Amélia Muge, Sérgio Godinho, Manuel Alegre, Vasco Graça Moura, Rui Veloso, Vitorino, José Mário Branco, Mário Laginha...

Neste disco escolheu o tema tempo como fio condutor. Porquê?

Ao fim de 11 anos de carreira falar do tempo foi quase óbvio. Há cinco anos que não entrava em estúdio e por isso sinto que estou mais amadurecida. Que já posso fazer uma espécie de balanço. Para mim, foi uma coisa naturalíssima. Apeteceu-me falar do tempo. Até porque aconteceram algumas mudanças na minha vida profissional e emocional, (fui recentemente mãe). De permeio gravei dois discos (um dedicado a Amália e outro a José Afonso) que me fizeram repensar imensas coisas na minha vida.

Como materializou a ideia? Tinha alguns poemas já escolhidos?

Tinha apenas dois que me chegaram antes de ter pensado na temática. Um era do Manuel Alegre ("Trago um fado") e outro do Vasco Graça Moura ("Tango"). Depois pensei que seria interessante convidar uma série de autores contemporâneos para comporem para mim. A proposta que lhes fiz era de que me escrevessem temas com a temática do tempo. A Amélia Muge foi a primeira a responder ao desafio, mesmo antes de a convidar formalmente. Tinha lido algures que eu iria fazê-lo e antecipou-se enviando-me o tema "O meu calendário".

O disco inclui "Fado mal passado", uma letra do pintor Júlio Pomar musicada por António Victorino d'Almeida? Como surgiu este encontro?

O Júlio Pomar é um amigo de longa data. Tem esta faceta de letrista que nem toda a gente conhece. Já é o segundo fado que canto dele. Gosto desta vertente muito satírica das suas letras. Por outro lado, como eu canto sempre coisas tão sérias, desta vez soube-me bem interpretar um fado tão brincalhão como é este. E a música do maestro Victorino d'Almeida, outra pessoa que também tem o dom da ironia, acabou por casar bem com a letra. O resultado agrada.

Também canta "Margarida", um poema de Álvaro de Campos musicado por Mário Laginha....

Essa é a única música que não foi feita originalmente para mim. Era para ser cantada pelo Camané, que nunca a gravou. Mas, como tem o nome da minha filha, pedi-lhes para me deixarem cantá-la. Afinal "Margarida" também fala da passagem do tempo.

Há alguma ausência que lamente neste seu trabalho?

Uma ausência terrível é a do Fausto. Ele bem tentou compor um tema mas não teve disponibilidade. O Jorge Palma também não conseguiu compor a tempo, mas canta comigo o tema "Margarida".

Este disco não é de fado, no sentido purista do termo. Ainda anda à procura de um estilo?

Já não me inquieta essa questão. Se calhar este é o meu estilo. Não sou nem me acho fadista. Canto o meu fado. Deixem-me que lhe chame assim, porque quando oiço o som de uma guitarra portuguesa a minha alma é completamente fado. Mesmo que, por vezes, aos puristas, não soe como tal.
..
..
O alinhamento de KRONOS é o seguinte:
..
Trago um Fado (3:18)Letra: Manuel Alegre / Música: Ricardo Dias
Eterno Retorno (3:01)Letra: Hélia Correia / Música: Janita Salomé
Bomba relógio (3:49)Letra e Música: Sérgio Godinho
Longe do Sul (3:37)Letra: Miguel Farias / Música: Carlos Bica
Margarida (2:35)Letra: Álvaro de Campos/ Música: Mário Laginha
O Meu Calendário (3:53)Letra e Música: Amélia Muge
Bichinhos Distraídos (3:45)Letra e Música: José Mário Branco
Tango (4:07)Letra: Vasco Graça Moura / Música: Mário Laginha
Eléctrico Amarelo (3:37)Letra: Carlos Tê / Música: Rui Veloso
O rapaz do trapézio voador (3:06)Letra e Música: Vitorino
O Sítio (4:50)Letra e Música: João Paulo Esteves da Silva
Uma outra Noite (3:02)Letra: João Paulo Esteves da Silva / Música: Ricardo Dias
Fado do Mal Passado (2:28)Letra: Júlio Pormar / Música: Victorino d’Almeida
Histórias do Tempo (3:23)Letra: Amélia Muge/ Música: Ricardo J. Dias


..

..

Álvaro de Campos


Ai, Margarida,


Ai, Margarida,
Se eu te desse a minha vida,
Que farias tu com ela?
— Tirava os brincos do prego,
Casava c'um homem cego
E ia morar para a Estrela.

Mas, Margarida,
Se eu te desse a minha vida,
Que diria tua mãe?
— (Ela conhece-me a fundo.)
Que há muito parvo no mundo,
E que eras parvo também.

E, Margarida,
Se eu te desse a minha vida
No sentido de morrer?
— Eu iria ao teu enterro,
Mas achava que era um erro
Querer amar sem viver.

Mas, Margarida,
Se este dar-te a minha vida
Não fosse senão poesia?
— Então, filho, nada feito.
Fica tudo sem efeito.
Nesta casa não se fia.

Comunicado pelo Engenheiro Naval
Sr. Álvaro de Campos em estado
de inconsciência
alcoólica.

Dia Internacional do Livro Infantil

2 de Abril



Desde 1967, na data de aniversário de Hans Christian Andersen, 2 de Abril, é celebrado o Dia Internacional do Livro Infantil, com o objectivo de promover o gosto pela leitura e evidenciar os livros infantis.

..

Conheça a Rede de Conhecimento das Bibliotecas Públicas: