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sábado, 28 de junho de 2008

Como me lembrei de ti, Padre António Vieira!

Talvez por andar às voltas com os exames nacionais, mais propriamente com a última questão, onde era pedido aos alunos que estruturassem uma reflexão sobre a dignidade humana e o respeito pelos direitos humanos no nosso tempo, partindo de uma citação de Guilherme d'Oliveira Martins sobre o Padre António Vieira, não pude deixar passar uma situação relatada na Visão (12 de Junho), sob o título "Os crimes contra a Amazónia".

O artigo debruça-se sobre os consecutivos ataques que o "pulmão do mundo" vai sofrendo, com «o desmatamento a ameaçar 25 milhões de habitantes e inúmeras espécies de plantas e animais do planeta».

Parece que está para ser aprovado um projecto que permite a desmatação até 50% da vegetação nativa, o que é considerado um descalabro ambiental, uma vez que, para além das perdas na biodiversidade local, também teria sérios impactos sobre a população, especialmente sobre os índios.

Ora Guilherme d'Oliveira Martins dizia, referindo-se ao Padre António Vieira, que «Foi um visionário, um diplomata, um pregador da Capela Real, um conselheiro avisado, um humanista, um lutador pelo respeito da dignidade humana, à frente do seu tempo, e um artífice, como houve muito poucos, da palavra dita e escrita».

O tal episódio relatado na Visão foi o seguinte: "No mês passado, um dos índios da região que impediam a invasão pelos agricultores das suas terras demarcadas foi a Brasília e atirou um copo às costas do governador Maggi, do Mato Grosso, o tal campeão do desmatamento. Avisou:«Atirei um copo, porque não tinha flechas.»"

À memória veio-me, novamente, o Sermão de Santo António aos Peixes, as lutas desiguais entre os colonos ávidos de lucro e os índios subjugados, um mundo de interesses hipócritas alheio à dignidade do ser humano, como tão bem ficou retratado no excelente filme de Roland Joffé, The Mission.

Há unanimidade quanto à evolução positiva dos direitos humanos, mas quatro séculos depois parece que só demos um simples passo, tão curto, tão exíguo e tão medroso que me parece que a probabilidade será ficar ali quieto a olhar, a ver se alguém dá um empurrão enérgico.

Padre António Vieira, «um humanista», «à frente do seu tempo». Parece-me que continua, infelizmente, pelas notícias que se ouvem todos os dias dos mais diversos cantos do mundo, pelas lutas entre os ambientalistas e os chamados "desenvolvimentistas", pelos jogos de poder, pela globalização, pela especulação financeira, bem à frente do nosso tempo.



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