O veludilho das palavras
PALAVRAS Dispo as palavras e não as sei vestir. Peso os seus ombros com rumores indizíveis. Aqueço as suas mãos com o bafo da minha alma. Envelheço seu rosto com as rugas das minhas cicatrizes. Aproximo seus pés do mar e chamo-lhes barco. Pinto a sua voz de silêncio e sento-as no regaço do sol. Atiro o seu corpo para fora do tempo e respiro-as nas ruínas trémulas das areias. Cubro seus cabelos com as árvores onde dormem os pássaros. Devoro-as com esta sede de dizer o infinito. Dispo as palavras e a sua sombra sou eu! Délia Caires ... Encontrei este poema no primeiro número da revista "Margem 2" e achei-o soberbo. Por isso, tomei a ousadia de o partilhar. Espero que a Délia Caires me não leve a mal, mas, como Ulisses, não poderia tapar os ouvidos com cera perante a voz das Sereias.