Frigidário
Tenho as mãos enregeladas. Enquanto penso, esfrego-as, aproveitando o intervalo de inacção das falangetas. As pontas dos pés, também, quase que não as sinto. Parece que plantei os pés sobre a geada. O tempo, realmente, tem feito jus ao mês e à quadra natalícia. Se calhar, noutros anos, habituámo-nos mal. Pudemos fruir, até mais tarde, de alguma complacência do frio, entretido por outras latitudes mais a norte. Para nosso desconsolo, este ano enredou-nos nesta aragem cortante e gélida, que nos faz desejar o cheiro do pinheiro seco a crepitar no borralho. Lá temos de sair à rua com o frio, como quem vai, contrafeito, passear o cachorro às 11 horas da noite, a fim de o quadrúpede se poder aliviar do cocozinho acumulado desde a última visita ao canteiro da frente, que, outrora, já teve relva e margaridas, mas que agora tem resquícios amarelados, quebradiços, secos daquela abundância de ácidos e de gases exalantes. Não quero atirar a frio, agora, uma história que me ocorreu, mas, a respeito...