Faça dinheiro sem esforço

sábado, 24 de maio de 2008


ARQUIPÉLAGO DAS
PALAVRAS


ELEVAR-SE ATÉ AO CHÃO




António Carlos Cortez

Poeta e professor de Português


Indisciplina e Violência

“(...) no nosso país se formalizou a ideia de que é a Escola em geral, e os professores em particular, quem deve educar e formar as gerações. (...)
Ora, se é a Escola que substitui as famílias, tal significa que um dos pólos do sistema educativo não funciona ou pura e simplesmente não existe. Se a família não existe, se os pais se demitem ou não sabem exercer o seu papel, isso significa que o problema da educação em Portugal não se resolve com medidas de circunstância (...)”.
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“Julgo que uma das causas fundamentais deste nosso «romantismo torpe» (...) se prende com a estrutural ausência nas famílias portuguesas — no povo, mesmo — do valor do saber, ou melhor, da formação da criança com vista às aprendizagens sociais.”
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“A verdade é que (...) a maioria dos pais não fala normalmente com os seus filhos: artificializa a relação ou por meio dum discurso infantil, em que impera o excesso de mimo, ou, mais tarde, através da mais leviana concepção de liberdade, quase sempre considerando os pais que são eles (...) o «melhor amigo» da sua filha ou filho.”
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“O resultado é quase sempre desastroso: perdida a noção de autoridade (não confundir com autoritarismo, veja-se) e perdido o sentimento de fronteira que deriva duma maior experiência de vida e um grau de interpretação do mundo que deveria ser maduro e consequente relativamente aos pais, já os filhos não podem ver nas figuras paterna e materna senão os veículos para o prazer. Hedonistas, o dinheiro transforma-se — o dinheiro e não outra coisa — no melhor amigo dos filhos.”
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“Queixam-se de que a Escola não motiva os seus filhos. Terão razão. Mas é difícil, senão impossível, motivar quem esteja alienado, quem jamais tenha lido um livro ou falado com os pais sobre cultura portuguesa, História de Portugal ou sobre os mais simples factos sociais.
Não é possível também motivarmos os nossos alunos quando, sejamos verdadeiros, as sucessivas reformas educativas visam o facilitismo, os resultados estatísticos, a superficialidade nas aprendizagens.”
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“Hoje os nossos alunos são apáticos, amorfos, ignorantes, inconscientes, violentos? Não admira. É amorfa e apática a nossa sociedade; é ignorante a comunidade em que vivemos; são inconscientes as acções que se tomam (falta-nos bom senso) e é violenta a sociedade de imagens em que vegetamos.”
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“Tal estado da arte encontra responsabilidades directas nos sucessivos governos que entendem que são os sociólogos da educação e as ciências desse ramo os detentores de uma fórmula mágica, a mais das vezes desfasada da realidade educativa, com profissionais fechados nos seus gabinetes de especialistas, sem jamais terem pisado uma escola ou conversado, sem complexos, com os nossos adolescentes.”
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“A escola não é, como referem os media, o lugar diabolizado da nossa sociedade. A escola, através do trabalho ideológico que as televisões vão fazendo, funciona como bode expiatório da crise educativa, que é, bem vistas as coisas, uma crise histórica, uma crise mental. Sem professores motivados para o exercício da pedagogia; sem docentes investigadores, permanentemente actualizados, críticos (com conhecimentos básicos de Filosofia, História, Língua e Literatura...), não é possível motivar quem quer que seja.”

Excertos do texto “Indisciplina e violência, Um caso mental”, publicado no Jornal de Letras (20 de Maio de 2008).

domingo, 18 de maio de 2008

Em 2014, o acordo entrará em vigor

Segundo Protocolo do Acordo Ortográfico aprovado

2008-05-16

Lisboa - O Parlamento aprovou hoje, com os votos favoráveis do PS, PSD, Bloco de Esquerda e sete deputados do CDS, o Segundo Protocolo do Acordo Ortográfico. Manuel Alegre (PS), dois deputados do PP e Luísa Mesquita votaram contra.


Em debate na AR esteve o conteúdo do Segundo Protocolo Modificativo do Acordo, redigido e assinado em S. Tomé e Príncipe, em 2004, que prevê que é suficiente a ratificação do texto por três países para que o mesmo entre em vigor.

Este Protocolo Modificativo foi assinado por todos os países lusófonos, mas apenas ratificado inicialmente por Brasil e Cabo Verde, tendo em Agosto de 2006 sido ratificado igualmente por São Tomé e Príncipe.

Três deputados do PSD, Henrique Freitas, Regina Bastos e Zita Seabra - que invocou «conflito de interesses» por ser editora - além de Matilde Sousa Franco, do PS, abandonaram o hemiciclo antes da votação.

O acordo teve a abstenção das bancadas do PCP, PEV e dos deputados Paulo Portas, José Paulo Carvalho e Abel Baptista (CDS-PP).

Contra votaram Manuel Alegre, PS, Nuno Melo e António Carlos Monteiro (CDS) e a deputada não inscrita Luísa Mesquita (ex-PCP).

Paulo Portas e o deputado João Oliveira anunciaram declarações de voto.
O protocolo abre a possibilidade de adesão da República Democrática de Timor-Leste, que à data do Acordo (1990) ainda não era um Estado soberano.

Em declarações à Lusa, o Ministro da Cultura esclareceu que «O Acordo já está em vigor em termos internacionais» mas «só entrará em vigor quando for assimilado por nós». Pinto Ribeiro calcula que «em seis anos» o novo acordo estará implementado e aceite pela comunidade.

Depois da aprovação desta manhã de sexta-feira, falta apenas a assinatura do Presidente da República para terminar a ratificação do acordo que entra em vigor daqui a seis anos.


Retirado de http://jornaldigital.com

Ferreira de Castro


24 de Maio de 1898

Mário de Sá-Carneiro


19 de Maio de 1890
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Poemas
7

Eu não sou eu nem sou o outro,
Sou qualquer coisa de intermédio:
Pilar da ponte de tédio
Que vai de mim para o Outro.
(Lisboa, Fevereiro de 1914)
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FIM

Quando eu morrer batam em latas,
Rompam aos berros e aos pinotes —
Façam estalar no ar chicotes,
Chamem palhaços e acrobatas.
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Que meu caixão vá sobre um burro
Ajaezado à andaluza:
A um morto nada se recusa,
Eu quero por força ir de burro...
(Paris, 1916)

terça-feira, 13 de maio de 2008

Manuel Alegre


12 de Maio de 1936

Poema de Manuel Alegre
"Coração Polar"


1.

Não sei de que cor são os navios

quando naufragam no meio dos teus braços

sei que há um corpo nunca encontrado algures no mar

e que esse corpo vivo é o teu corpo imaterial

a tua promessa nos mastros de todos os veleiros

a ilha perfumada das tuas pernas

o teu ventre de conchas e corais

a gruta onde me esperas

com teus lábios de espuma e de salsugem

os teus naufrágios

e a grande equação do vento e da viagem

onde o acaso floresce com seus espelhos

seus indícios de rosa e descoberta.


Não sei de que cor é essa linha

onde se cruza a lua e a mastreação

mas sei que em cada rua há uma esquina

uma abertura entre a rotina e a maravilha

há uma hora de fogo para o azul

a hora em que te encontro e não te encontro

há um ângulo ao contrário

uma geometria mágica onde tudo pode ser possível

há um mar imaginário aberto em cada página

não me venham dizer que nunca mais

as rotas nascem do desejo

e eu quero o cruzeiro do sul das tuas mãos

quero o teu nome escrito nas marés

nesta cidade onde no sítio mais absurdo

num sentido proibido ou num semáforo

todos os poentes me dizem quem tu és.


2.

Ouvi dizer que há um veleiro que saiu do quadro

é ele que vem talvez na nuvem perigosa

esse veleiro desaparecido que somos todos nós.

Da minha janela vejo-o passar no vento sul

outras vezes sentado olhando o ângulo mágico

sinto a sua presença logarítmica

vem num alexandrino de Cesário Verde

traz a ferragem e a maresia

traz o teu corpo irrepetível

o teu ventre subitamente perpendicular

à recta do horizonte e dos presságios

ou simplesmente a outra margem

o enigma cintilante a florir no cedro em frente

qual é esse país pergunto eu

qual é esse país onde tudo existe e não existe

qual é esse país de onde chega este perfume

este sabor a alga e despedida

esta lágrima só de o pensar e de o sentir.

Não é apenas um lugar físico algures no mapa

é talvez o adjectivo ocidental

o verbo ocidentir

o advérbio ocidentalmente

quem sabe se o substantivo ocidentimento.

Está na palma da mão no nervo no destino

e também no teu corpo aberto ao vento do nordeste

é talvez o teu rosto alegre e triste - esse país

que existe e não

existe.


Eu não sei de que cor são os navios

sei que por vezes

no mais recôndito recanto

no simples agitar de uma cortina

numa corrente de ar

num ritmo

há um brilho súbito de estrela e bússola

uma agulha magnética no pulso

um mar por dentro um mar de dentro um mar

no pensamento.

Há um eu errante e mareante

não mais que um signo

um batimento

um coração polar

algo que tem a cor do gelo e do antártico

e sabe a sul a medo a tentação

uma irremediável navegação interior

um navio fantasma amor fantástico.


Lisboa, 5 e 6.1.98

Do livro Senhora das Tempestades, 1998

Este poema foi retirado de http://www.manuelalegre.com

sábado, 3 de maio de 2008

Fialho de Almeida


7 de Maio de 1857

A UTILIZAÇÃO DA PREPOSIÇÃO “ATÉ”

A preposição "até" indica um limite: de tempo; no espaço; ou nos actos que praticamos. Exemplos:

«Tens de fazer o trabalho de casa até amanhã.»

«Correu até ficar exausto.»

«Ramalho Eanes foi Presidente da República Portuguesa de 1976 até 1985.» Variante: «...de 1976 a 1985.»

«Caminhou até ao cinema.»

J.C.B., in Ciberdúvidas