"Memórias da Grande Guerra", de Jaime Cortesão

«A BATALHA DO LYS
9 de Abril de 1918
Lázaro, ergui-me do sepulcro. Vivo com a frescura de emoções de quem renasce.
Já vejo alguma coisa e dou o meu passeio pelo corredor do hospital.
Mas, porque a minha memória foi profundamente abalada e um véu de sombra me empana ainda os olhos, o mundo e a vida, onde eu reentro; surgem do Caos, brilham a custo, através de um nevoeiro espesso e primitivo. Não vejo as linhas contornais das coisas e dos seres. Lobrigo apenas manchas paradas e sombras que se movem.
Voltou-me, com violência nova, o desejo de viver. Consequentemente o interesse pelas novas da guerra.
Das nossas tropas vem a notícia de mais um raid, realizado com grande valentia. O Américo Olavo consegue levar a sua gente até à segunda linha boche, mas a noite chuvosa, a terra encharcada, e mais do que isso a rápida retirada dos alemães, não lhe dão os felizes resultados que o seu valor merecia.
Com este é o terceiro grande raid das nossas tropas, pois já antes do Olavo, o capitão Vale de Andrade realizara uma incursão às linhas inimigas com muito e feliz arrojo.
De toda a parte chegam sinais de que a luta se intensifica. Espera-se, a cada hora, que a ofensiva alemã, iniciada na direcção de Amiens se generalize a outros pontos da frente.»
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Jaime Cortesão, Memórias da Grande Guerra (1916-1919), Porto, Renascença Portuguesa,"Biblioteca Histórica, Memórias II", 1919
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