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quinta-feira, 9 de abril de 2009

"Embeiçado"

Já há muito que tivemos esta conversa. Os dias foram passando e ficámos, até agora, somente pelas palavras trocadas por cima de um balcão. É quase como se só me visse em grandes planos. Já se deve ter habituado a observar os outros assim, em partes, em relampejos, em olhares.

Olho para o balcão e vejo-o lá, emoldurado, como se todo aquele tabuado polido fosse o caixilho do seu trabalho. O ser, esse, não se prega, fixo, com tachas de metal.

Disse, então, que numa determinada novela empregavam o termo “embeiçado” com um significado diferente daquele que conhecia, “estar sem dinheiro”.

Empederni-me, pois esse era claramente um significado que não conhecia. Sempre ouvira e aplicara o sentido de “estar enamorado”, “andar pelo beicinho”.

Pensei que tivesse sido um problema meu de audição e insisti consigo. Andámos, assim, durante alguns segundos, a soletrar sílabas, como se fôssemos linguistas ou teríamos perdido, sei lá, as estribeiras, no julgamento avulso de alguém que se fizesse aparecer naquele momento tão filológico.

Continuava alheado de uma explicação clara sobre a aceitabilidade desse significado. Não lhe poderia dar certezas, pois, para um “cubano”, a aprendizagem de determinados termos vai sendo feita com o tempo. O berço trouxe-me outros vocábulos, muitos deles também de aplicação regional, que, por sua vez, vou tentando não esquecer, para bem de todo o nosso riquíssimo património linguístico. Às vezes acontece estarmos a discutir determinados regionalismos e notamos que essas mesmas palavras têm um uso igual em determinadas zonas do Continente. Espanta-me, por exemplo, dizer-se que “malha”, no sentido de “dar uma malha a alguém”, é um regionalismo madeirense, ou que “penca”, no sentido de “nariz”, também o é. Por vezes, cai-se um pouco no exagero, por desconhecimento dos usos de outras zonas e da própria história da Madeira, com os seus movimentos populacionais. Contudo, isto não diminui em nada, muito longe disso, todo o valiosíssimo património ao nível dos regionalismos madeirenses, que eu deveras aprecio, cada vez mais.

Assim, meu caro amigo, aprendi consigo que “embeiçado” também poderia significar “estar sem dinheiro”, como pude, posteriormente, confirmar no blogue da Lilia Mata, “o rabo do gato”, delicioso nestas estórias que têm palavras como personagens. Não vem nos dicionários normativos, compreende-se, mas tem a correcção do uso, num código que é entendido e aceite por um conjunto de falantes.

Para que a memória das gentes e a alma das palavras não se perca, tem de haver sempre estes momentos animados em que nos embeiçamos com o porte de uma expressão.

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